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Quem somos:

Valinhos, SP, Brazil
Eu sou consultor de TI e a Walquíria, professora. O meu hobby é o tiro esportivo e o dela, a leitura. O nosso é o motociclismo.

sábado, 21 de janeiro de 2012

17 de Janeiro - Terça-Feira - Um dia para ser lembrado...e esquecido


Piamonte - Forasteiros são Bem-Vindos - Depois de Identificados 
Aquela terça-feira havia começado bem cedo. Como havíamos feito um acordo em que tentaríamos recuperar na estrada o dia em que ficamos a mais no Chile, combinamos que o primeiro que despertasse iria acordar o outro e logo partiríamos para o nosso destino que agora era incerto pois o plano era a cidade de Margarita distante 723 Kms. de Córdoba. Margarita não tinha nada de especial e só foi definido nos planos da viagem como ponto de parada para descanso. Logo poderia ser antes ou depois. Mas agora o plano era seguir em frente até onde desse. As 5:30 eu estava de pé e as 06:20 hs já estávamos com a conta do hotel paga, moto equipada e prontos para rodar. No caminho, ainda na cidade de Córdoba, paramos em um posto para abastecimento, limpeza de viseiras, lubrificação de corrente e água. Exatamente às 07:00 hs. estávamos na estrada. Programei o GPS para nos guiar até Santa Fé que ficava no caminho para Margarita. Não demorou muito, uns 80 Kms. depois tive que fazer a primeira parada porque o GPS parecia meio perdido pois a rodovia apontada a seguir aparecia à direita de onde estávamos. Num posto aproveitamos para tomar café e consultar o mapa. Estávamos no caminho certo e portanto seguimos. A rodovia passava por muitos povoados pequenos e a cada um deles, logo na entrada, havia um posto de combustível. Vendo a fartura de combustível na rota, não me preocupei muito em seguir adiante e resolvi que quando o tanque estivesse pela metade, eu abasteceria no próximo povoado.
Esse foi o primeiro erro do dia. Os povoados acabaram e os quais passamos depois do último eram tão pequenos que não havia um posto sequer. Comecei a fazer cálculos para ver quanto era nossa autonomia. O tanque estava a 1/4 e portanto tinha ainda por volta de 82,5 Kms. E nenhum posto a vista. Logo o alerta de falta de combistível começou a piscar. Isso indicava por volta de 4,5 litros - 67 Kms. portanto. E Nada. Logo o segundo alarme começou a piscar - 3 Litros. 45 Kms e iríamos parar. Nesse ponto eu já não passava de 80 Kms. por hora para fazer render ao máximo o que tínhamos. Logo apareceu uma placa que dentre 3 localidades com as distâncias anunciadas a mais próxima era Piamonte a 13 Kms. de onde estávamos. Esses 13 Kms. teríam de ser cumpridos saindo do nosso roteiro. Tomamos a decisão de entrar ali pois não tínhamos idéia se haveria combustível a frente mas também era um risco porque não sabíamos se haveria combustível na tal de Piamonte. E se não houvesse, estaríamos presos lá porque não dava para retornar ao caminho original e continuar buscando o precioso líquido que nos manteria na estrada. Chegamos à pequena Piamonte. É uma comuna do Departamento de San Martin ( isso eu vi consultando a internet depois do que nos passou lá ). Já quando entramos na pequena vila víamos que as pessoas reparavam em nós com grande curiosidade - mais que nada pela moto e talvez pelo modo como estávamos vestidos. Logo que pude, parei um senhor e lhe perguntei onde poderia comprar nafta. Ele gentilmente me explicou e daí me tranquilizei porque sabia que pelo menos por alí tinha um posto. Nos perdemos um pouco e logo depois perguntei a um garoto novamente pelo posto e o mesmo nos explicou. Dessa vez chegamos lá. Mas um pouco antes de falar com o tal garoto, passamos em frente a um banco onde havia um carro policial parado. Apontei o banco para a Walquiria lhe dizendo que depois passaria por ali para sacar pesos para continuar a viagem e cumprimentei o guarda que estava dentro do carro. Mas o mesmo não me cumprimentou de volta. Já no posto conversei com o frentista quando ele me perguntou de onde vínhamos. Ao final, confirmei com ele a localização do banco. Tanque cheio, fomos ao banco. Lá chegando, estacionei a moto logo em frente e fui ao caixa eletronico. Dinheiro sacado e com tanque cheio eu já estava com o capacete na cabeça e vestindo as luvas quando encostou ao nosso lado uma caminhonete da polícia.
Acompanhando a polícia até a delegacia.
Um oficial saltou dela, veio em nossa direção e me perguntou se éramos turistas. Eu disse que sim, que éramos brasileiros e estávamos lá porque quase havíamos ficado sem combustível. Ele nos pediu nossas identificações. Tirei o capacete e as luvas. Abri o bau traseiro, tirei nossos passaportes e entreguei-os a ele. Ele os viu e se comunicou com seu superior dizendo que éramos turistas brasileiros. Deu para ouvir no rádio a surpresa do tal superior. Isso nos fez acreditar que já sabiam da nossa presença na cidade pois o oficial veio com a intenção clara de nos verificar - havíamos causado estranheza nos víveres da comuna. O superior disse ao oficial que nos abordava algo pelo rádio que não consegui entender mas ele nos disse que tínhamos que acompanhá-lo até a comissaría ( delegacia ) para sermos identificados e depois poderíamos seguir viagem. Assim acompanhamos ele, nós na moto e ele na caminhonete, no curto trajeto até a tal delegacia. Neste curto trajeto ficamos um pouco preocupados sobre o que poderia acontecer. Haveria alguma acusação falsa a nós? Iriam solicitar alguma propina? Enfim - nos sentimos no meio daqueles filmes em que vemos estranhos sendo abordados pelo sherife da cidade que tenta assustá-los para logo deixarem o local ou ainda pior, aqueles que acusam suas vítimas de algo para trancafía-las esperando por alguma vantagem...Na comissaria  entramos numa pequena sala onde existe um pequeno balcão de atendimento.
O oficial se posicionou atrás desse balcão e pediu novamente nossos documentos e também o documento da moto.
Nesse momento entrou um senhor de camiseta e boné que até agora não entendemos o que estava fazendo lá. Não disse uma única palavra mas assistiu a todo o processo pelo qual passamos. O oficial perguntou a Walquiria e depois a mim o nosso nome, profissão, endereço, idade ( confrontando com o passaporte ). Anotou a placa da moto e também aonde iríamos - que no caso eu disse Santa Fé - cidade grande mais próxima dali. Anotado os dados ele foi dizer algo ao superior que estava numa sala separada e que não pudemos ver. De lá saiu e nos disse que estávamos livres para ir e nos desejou boa viagem. Aliviados, saimos. E dali saimos rapidamente em direção à rodovia. Durante toda a viagem passamos por inúmeros postos de controle policial e em nenhum momento fomos parados por qualquer razão. No local mais improvável do mundo fomos abordados, diria eu, de uma forma bastante incisiva. Para um abastecimento, havíamos perdido bastante tempo em Piamonte. Seguimos e agora de volta ao caminho original encontramos combustível uns 30 Kms. depois da pequena Piamonte. Se havíamos chegado ali sem abastecimento a moto talvez não tivesse um litro no tanque. Continuamos o caminho em direção a Santa Fé e de novo um calor terrível e não achávamos agora um lugar para parar e tomar água. Então decidi entrar em Santa Fé. Na cidade eu havia visto um cartaz do McDonald´s. Ali seria o lugar do almoço. Abasteci a moto, por segurança e rumamos para a lanchonete. Lá comemos bem e tomamos muito líquido. Uma hora depois estávamos saindo e em direção a Margarita. Porém o segundo problema do dia aconteceria alí mesmo em Santa Fé: Paramos num balão e a forma em que eu parei a moto fez com que todo o peso dela, carga e passageira fosse depositado na minha perna esquerda. E daí faltou perna...comecei a tentar segurar a moto de forma que ela não tombasse e numa fração de segundos percebi que se tentasse continuar segurando-a iria ferir a perna gravemente ou quebar algo no guidão pois tentava segurá-la também usando as mãos. Foi uma fração de segundo mas a Walquíria, também já esperta, percebeu a situação e se posicionou de forma que quando eu larguei a moto para que ela fosse ao chão ela ficasse de pé. E assim aconteceu. Eu fui com a moto para o chão e a Walquíria ficou de pé. Não houve nada com a moto, comigo e com a Walquíria.
Por-do-sol refletido no espelho - bonita imagem
Apenas o orgulho ferido de haver caído - e na maioria das vezes é o que doi mais num motociclista. Erguer a moto do chão não foi difícil. Logo estávamos montados e em direção a estrada. Mas o calor estava muito forte naquele dia. Não conseguíamos fazer com que a viagem fosse produtiva pois a estrada, a todo momento, entrava em trânsito urbano e a velocidade tinha de ser diminuida. Além disso o calor nos castigava e tínhamos que parar para tomar água a cada 80 kms. Margarita começou a ficar muito longe. Na primeira parada depois de Santa Fé  eu tinha sono e como no posto havia um sofá, decidi dar uma cochilada. E seguimos. Com muito custo, por volta de 19:00 hs chegamos em Margarita. Mas eu ainda tinha gas para continuar e também alí resolvemos mudar a estratégia: procuraríamos um hotel para dormir por umas 4 horas e continuaríamos o caminho. E assim faríamos até chegar a Campinas. Um ponto importante é que a noite a viagem ficava mais produtiva pois a temperatura era agradável e não havia tanto trânsito. Além disso eu sentia muito menos sono naquele horário. Encontramos um hotel em Margarita mas era muito caro por algumas horas de sono e a sra. proprietária não quis nem saber de negociar. Nos disse ainda que havia muitos hoteis alguns kms. a frente. Resolvemos então seguir e agora até a cidade de Resistência, 300 kms. de Margarita. Assim naquela terça feira iríamos cumprir mais de 1.000 Kms. rodados. Mas os acontecimentos do dia ainda não haviam terminado e o pior dos espisódios estava por ocorrer e durante a noite escura em estrada praticamente deserta. Uma imagem linda do por do sol começou a ser refletida no espelho retrovisor. A imagem era tão bonita que resolvemos parar e tirar fotos daquela luz de fim de dia. Já escuro, próxima da cidade de Saenz Peña, um problema: Ao freiar para passar numa lombada a moto apagou completamente. Não havia sinal de sistema elétrico - tudo se apagara repentinamente inclusive o motor. Estacionei no acostamento e naquele ponto havia muita gente pois estávamos próximo a algum evento da cidade que estava terminando. Não demorou muito e estávamos cercado de curiosos. Preocupado com a aglomeração em volta e tentando raciocinar o que haveria de errado, busquei a caixa de fuziveis para ver se algum estava queimado. Nenhum. Mas eu sabia, por ter lido o manual, que havia um fuzivel mestre do sistema. Busquei o manual no baú traseiro para saber a localização do tal fuzível. Nisso percebi que a nossa volta só permaneceram 3 garotos que tantavam um diálogo com a Walquiria.
Luis, Hernan e Ezequiel - os tres garotos que batemos papo
Ela respondia às perguntas deles pois entendia o que falavam mas eles não entendiam bem o que ela dizia. Então, às vezes, eu atuava como tradutor mas sem tirar minha atenção do problema e também do baú traseiro que estava aberto e tinha bastante objetos a vista como computador, tablet, camera, etc. Pensando que aqui no Brasil, dependendo do local onde houvéssemos parado, a chance de sermos saqueados era grande, fiquei preocupado. Mas tinha que tentar nos tirar dali. E o manual indicou onde estava o fuzivel meste e sim, era ele mesmo que havia queimado. Procurei um para substituí-lo e feito isso, todo o sistema havia sido restabelecido. Ao final já tínhamos batido papo com os garotos sobre diversos assuntos como o que gostavam mais na escola, futebol ( foram políticos quando lhes perguntei quem era melhor: Brasil ou Argentina - os dois disseram ). Ao final tínhamos algumas bolachas compradas no caminho e oferecemos a eles que aceitaram e também tirei uma foto deles com a Walquíria. Incrivel como um problema daqueles nos ofereu uma oportunidade única daquelas de conversar com 3 garotos da mesma idade dos que a Walquiria tem como alunos. Foi um dos momentos agradaveis da viagem e me chamou atenção de como muitas vezes nos fechamos para esse tipo de experiência por causa da nossa cautela com a violência em que vivemos em nosso país. Moto em ordem, seguimos viagem. Mas durante o caminho eu estava preocupado com a queima do fuzível mestre porque esse tipo de evento é um sintoma e não o problema em sí. Queima de fuzível é como dor: indica que há um problema e não é o problema em si. Andamos mais uns 30 ou 40 Kms. quando todas as lampadas indicativas do painel começaram a piscar. Os ponteiros de velocidade e conta giros voltavam ininterruptamente para o zero e para o ponto máximo. A luz espia central que de acordo com o manual indica algo grave nos sistemas eletronicos ficou totalmente acesa. E o motor começou a falhar - mas não parar por completo. De novo tínhamos problemas. E agora estávamos numa escuridão total. Mas logo tudo voltava ao normal e assim ficava por alguns minutos. Os episódios aconteciam e rapidamente tudo voltava ao normal. Logo aconteceu também de tudo se apagar completamente inclusive os farois e o motor deixando-nos numa escuridão total e rodando em alta velocidade. Mas rapidamente tudo voltava ao normal. Exceto quando tudo se apagava, eu conseguia manter a moto andando desde que não abaixasse as rotações do motor. Então apesar de todos os indicadores ficarem loucos de tempos em tempos, eu me concentrei em pilotar a moto e não deixá-la baixar a rotação pois se isso acontecesse o sistema se apagaria por completo. A Walquiria atrás tentava me ajudar olhando o trânsito e rezando. A situação se complicava quando havía veículos a serem ultrapassados pois tínhamos que esperar o ponto certo e as vezes os pontos demoravam a aparecer ou pela trecho da rodovia que não oferecia visada do trânsito vindo da direção contrária ou porque tinha trânsito na direção contrária. O desafio era manter o motor em alta rotação mesmo freando. Numa das tentativas de ultrapassagem a moto chegou a apagar por completo, inclusive os farois. Mas rapidamente se restabeleceu. Minha preocupação era levá-la para um lugar iluminado. Só isso. Pois eu já sabia qual era a solução paliativa do problema - trocar o fuzível novamente. Víamos um clarão no horizonte que indicava que estávamos chegando à cidade de Resistência. Mas foram os mais longos kilometros percorridos na minha vida. Logo no primeiro trevo iluminado na cidade a moto se apagou. Mas daí pudemos substituir o fuzível. Mas durante o percurso eu notei que havia um fuzivel de 30 amperes no lugar de um de 15 e era exatamente o fuzivel que estava queimando quando mandei a moto numa oficina no Chile para reparar o problema - que me disseram que era um curto na lanterna traseira. Mas o que fizeram não foi reparar o problema pois sequer o identificaram. Apenas colocaram um fuzivel de 30 amperes no lugar de um de 15 fazendo com que o problema não se apresentasse mais porém forçando todo o sistema da moto até a queima do fuzivel mestre. Quando removi o fuzivel errado tudo voltou ao normal - exceto é claro o problema que havia quando chegamos a Santiago que passou a acontecer de novo pois o curto ainda existia mas agora não havia um super fuzível para ¨encobri-lo¨. Isso de certa forma nos deu tranquilidade pois eu sabia o que estava acontecendo devendo apenas a me preocupar em solucionar o problema que não havia sido resolvido em Santiago. Mas o pior que poderia nos acontecer agora era ter de voltar ao Brasil sem indicações no painel, pisca-pisca e luz de freio. Dava para fazer. Resolvemos então passar o resto da noite ( Já eram 01:30 da manhã ) em Resistência e na manhã seguinte seguirmos para o Brasil com o problema pois eu já não acreditava que alguém poderia me ajudar por aquelas paragens. Encontramos um hotel no centro - outro daqueles - e no dia seguinte resolveríamos o que fazer. A solução veio da forma mais inesperada...e a solução foi ridiculamente simples. Chega a ser criminoso o que nos fizeram em Santiago.

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